Mais que um Patuá

Enquanto tenta manter ao volante o controle da vida, treme na incerteza do procedimento vizinho. O olhar que se atenta, previne aproximações perigosas em tais velocidades. As mãos que seguem mecânicos movimentos também precisam de firmezas astutas. Mas, apesar dos seguros procedimentos, um veículo desfaz distância.

Foi quase.

A mão escorre da testa o suor que não existe e passa os dedos por entre o terço. O movimento é suave, mas a fé é forte. Para além do Patuá, uma certeza que segura.

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Meus passados

Um passado e tantas imprevisíveis reações.
Das travessuras, o riso e da irreverência infantil, a saudade.
Cenas quase trágicas na memória e no olhar, um alívio que brilha.
Flores que desenterram cheiros de amores ambulantes.
Melodias que rebobinam lembranças de uma dança adolescente.
O silêncio de um inesquecível arrependimento.
A careta de um amargo remorso.
Retratos eternos que descombinam emoções.
Desordem de registros.
Era para lembrar,
Era para esquecer,
Mas a memória tem seus descontroles.
Do livro antigo um imperativo pedido, traga apenas o que for esperança.

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Bobagem

A movimentação da bancada evangélica demonstra a cada dia que nós entendemos errado o que significa levar as boas novas.
Confundimos evangelizar com domesticar e reprimir.
Achamos que impor os valores de Cristo “democraticamente” é transformar o mundo. Bobagem.
E pior ainda, supomos que a imposição de conceitos como essa discussão quanto a definição de família, pode trazer salvação.
Questiono não apenas a efetividade disso, mas também a intenção dos seus legisladores.
Questiono se o que eles querem não é manter manobrável essa massa onde se misturam gente de bem e fundamentalistas reducionistas, a fim de mantê-los cativos de seus votos.
Talvez, seja tudo política e disputa de poder.
Se fosse pelo Reino, não haveria imposição, mas liberdade.
Se fosse pelo Reino, não estaríamos ocupados em defender conceitos, mas em defender pessoas.
Se fosse pelo Reino, nos envolveríamos menos com uma apologética de símbolos, e nos engajaríamos mais na preservação do valor da vida.

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Liberdade Condicional

Fossem as prisões o fim de nossos poços, haveria algo a se esperançar.
Mas não.
Achamos ser ali o lugar onde distante de seus instrumentos, o homem se encontre a salvo de sua maldade.
Também não.
Na verdade, o mal está ancorado no interior de um coração que se desapegou da vida.
E ali, aprisionado, a vida faz ainda menos sentido e sente-se ainda menos saudade dela.
Pra que percorrer longo caminho até um fim onde ela só se alcança por lembranças esquecidas?
Se for pra ser devolvido ao mesmo arsenal, quer dizer que o mundo continua na mesma e já não faz diferença viver longe dessas grades, pois teimo em decidir que prisão me torna pior.
Esperei pela liberdade.
Mas se antes eu apenas me desviava os anos, deixando-os apodrecer sem colhe-los do seu pé, agora eu mal deixo-os amadurar, pois tenho medo de sentir o seu gosto doce. Prefiro amargar e não desejá-los.
A não ser que uma chave me encontre, me definho eu mesmo.
Uma chave que me abra essa porta que me mantém preso nessa falta de presente e nesse exagero de passado.
O futuro nem peço, por hora me basta o resgate do meu hoje.

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Ha, essa fome de Deus!

Ha, essa fome de Deus!
Essa sede insaciável de sua presença.
Fome.
Sede.
Necessidades conhecidas. Sabemos identificá-las e como dar conta delas.
Mas nem sempre soubemos.
Conhecimento adquirido.
Aprendemos no instituto da sobrevivência.
Quando crianças, só sabíamos chorar.
Não éramos habilidosos em dar nome a esses sentimentos de falta.
Choro e manha eram nossa forma de falar do estomago vazio e da boca seca.
Embora nossa caminhada com Deus seja de maturidade e crescimento,
algumas coisas sempre faremos como crianças.
Não serão poucas vezes que experimentaremos angústia e falta desconhecidas.
E então, como crianças, corremos para os braços do Pai e o buscamos intensamente.
Clamamos por Ele.
Choramos com Ele.
Cantamos pra Ele.
Recebemos carinho dEle.
Encontramos em seus braços, nosso descanso.

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Salmo da garoa

Abri a janela e a chuva molhou meus pés.
Em meu rosto a sensação da brisa que ela faz.
Enquanto chove, sinto o carinho de Deus.
A manhã fria me convida a salmodiar.
As gotas que caem juntas, fazem música.
Canção de ninar.
Vem dormir e descansar, filho.
Deixa a chuva fazer companhia ao teu choro silencioso.
Não, não precisa falar, eu ouço seu coração.
Seus pés inquietos me dizem tudo.
Não é tristeza que me faz chorar, Senhor.
Eu sei.
É perceber que enquanto sonhava, você estava lá, dentro do meu sonhos.
E que agora, que estou acordado, te vejo entrar pela fresta da cortina com luz e frescor.
Que graça essa sua singeleza.
Quanto carinho nessa visitação.
Meu dia é teu.
Preencha os vazios dele e os vácuos da minha vida.

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Lápis Velho

É de costume que o lápis de cor não seja usado até o final.
Quando fica difícil segurar ele com os dedos por conta do pouco tamanho, troco de cor ou de estojo, e aquele que me servia emprestando sua cor, já não presta mais.
Mas vale lembrar que ele só chegou a essa fase porque se deu.
Deu sua cor para as minhas aquarelas e desenhos antes vazios.
Onde sobrava apenas contorno, ele pôs destaque.
Nada de mal em ser gasto, é para isso mesmo que ele foi feito.
Para colorir.
No entanto, é uma pena que, embora ele ainda seja capaz de ofertar o seu verde, por não ser mais tão funcional, é deixado de lado.
Não é diferente a trajetória do Ser Humano.
Há uma fase da existência em que a capacidade de colorir a vida ainda não se foi, mas já não está plena.
E então prepara-se um estojo e ali são colocados os velhos e já bem usados lápis.
Em seus cabelos o branco parece mostrar a ausência de cor e, portanto, sua inutilidade.
No entanto, o que este branco demonstra é a mistura e a presença de todas as cores.
E então, aqueles cuja lente da vida enxerga apenas o “funcional”, perdem a beleza da sabedoria multicor que não é apenas utilizável, mas é viva e livre!

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