Masculinidade embrutecida (emburrecida)

A cena do almoço foi uma “briga de trânsito” envolvendo dois sujeitos embrutecidos.
Quem fez o quê, eu não faço ideia. Mas vi no que deu.
A briga não passou de dois socos e um chute porque os dois cegos não perceberam que começaram a disputa bem em frente a uma viatura da polícia militar.
Na verdade, passou sim.
Me fez mal, muito mal, ver que o etos masculino que estampamos ainda é o do enfrentamento. Nosso ego insaciado ainda alimenta nossa fome por sermos o Alfa da alcateia.
Nossa raiva precisa encontrar e derrotar o mais fraco.
Aliás, vivemos em busca dos mais fracos. Afinal, sobre quem impor nossa força?
A cidade é uma selva, nós somos os caçadores e todos nos exaltarão se mantivermos nossas presas sob controle.
Assim aprendemos a sermos homens e assim mantemos nossa débil identidade.
Somos assim no trânsito ou em qualquer situação de conflito. Acreditamos que se pudermos agredir e humilhar o outro (que se configura em meu oponente, mas não o é) sairemos vencedores de uma batalha imaginária.
Somos assim em nossas casas onde supomos que seremos bem-sucedidos se mantivermos o medo como mecanismo de ordem. Então, nossas mulheres nos temem, nossos filhos se apavoram e em nosso trono (cadeira do papai) reinaremos soberanos.
Se temos de liderar, que sejamos imponentes e respeitados. Respeito imposto.
Trajeto errado. Evidente colisão. Inevitável desastre.
Ou corremos em busca da restauração da imagem do homem sob a luz do Cristo, ou acabaremos nos matando.

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Intervalo

E a semana recheada de tantos assuntos importantes e movimentos sociais necessários não me enche os olhos e não me chama a atenção.
Me desculpem, mas estou com a mente focada em alguns assuntos bem meus mesmo.
O que dizer desses dias em que as dores do mundo não entram em nossa sala e qualquer notícia séria do jornal perde para uma sitcom Tio Sam? Nada de humor reflexivo ou ácido. Só a graça do cotidiano e a piada da rotina.
No final desses dias, o cheiro dela e um banho morno.
Sofá de casa e uma comida simples.
Arroz, feijão, ovo e bife.
O Banquete do básico.
A conversa dispensa a pauta do jornal.
Na cabeceira a prosa e o saltério parafraseado.
Mia Couto e Davi.
A leitura, apenas para o deleite e pra se deixar encantar.
E pra ficar encantado é preciso estar distraído.
As vezes preciso dar um intervalo na minha procura por grandes assuntos e deixar a alma calada.
Sossegada.
Silêncio, sem lenço.
Choro, sem coro.
Só rir, sem corrigir.
Ao travesseiro, os companheiros, Pai, Filho e Espírito.

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Tanto mais

Nem tudo o que é meu me tem.
Tudo o que eu compro ou crio, faço uso e descarto.
Apenas ao que é vivo me permito pertencer.
Sou adquirido pelo afeto.
E quanto menos mereço o afeto que recebo,
mais me sinto incapaz de dizer não ao que a mim se oferta gratuitamente.
A gratuidade dos sentimentos é a liberdade das relações.
Gosto porque quero. Quero porque gosto.
Vamos ao parquinho aprender isso com as crianças!
Elas são especialistas em amar ao que não se dedica em ser amado.
São livres pra gostar de graça.
Elas conseguem despertar em nós o amor mais forte, sincero e gratuito que podemos oferecer.
E mais, e mais…
E tanto mais.

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Eu não celebro a prisão

Me sugeriram comemorar a prisão de alguém.
Não aceitei o convite.
Isso não deve ser motivo de festa, embora suponha justiça.
Na verdade, isso é o mal mantendo seu ciclo de destruição e encarceramento existencial.
O projeto do mal é reduzir o ser humano à condição de sub-humanidade e a prisão é uma estratégia genial.
Talvez a prisão seja um mal necessário, mas o mal não é necessário.
Não é necessário mantermos o seu ciclo.
Podemos quebrá-lo. Podemos refazer alguns ciclos sociais.
Ainda temos tempo de reciclar conceitos e perspectivas, e impedir que mais gente seja jogada no lixo sem reaproveitamento.
Mas para tal, o caminho exige esforço coletivo e integral.
Exige sermos mais misericordiosos e menos vingativos.
Exige o exercício de repensarmos nossos passos e sermos criativos.
Exige paciência e diálogo.
Exige que diante do mal não sejamos imaturos acreditando que ele perderá sua força à medida que eliminarmos seus fantoches.
O mal é maior que isso e maior do que ele é o Reino de Deus.
E a serviço do seu Rei, seguimos derrubando as estruturas que fabricam prisioneiros em todos os contornos da sociedade.

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Sensacionalista

A mídia é medíocre.
Sem percebermos, ela transforma o que deveria ser tratado com respeito e cautela em produto e consumo.
Capitalizando tragédias e vendendo exageros, fazem do ser humano e de suas complexidades o palco do seu show.
O debate sexualidade e religião, que deveria ser aprofundado, é empobrecido pela estética sensacionalista.
Cuidado ao promover sua passeata, os noticiários se especializaram em roubar delas seu valor ideológico.
Vendem fotos e fatos sem qualquer compromisso com a verdade.
Afinal, se pagam bem, que mal tem?

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Completamente apegado

A experiência da vida é exaustiva.
Lidar com a nossa existência de modo critico e reflexivo, cansa.
Nessa caminhada, experimentamos uma sede.
Esta sede é do Deus Pai.
Não é do divino ou do sagrado. É de Deus.
Nosso coração pulsa a falta do Deus que é amor.
Queremos e ansiamos por mais intimidade com ele.
E quando somos por ele alcançados, somos saciados.
Estamos satisfeitos.
Ainda temos necessidades e faltas, mas nos sentimos completos.
O corpo ainda grita mas a alma está serena.
Em paz, estamos apegados.
Completamente apegados.
(Salmo 63)

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Fotos e Afetos

Quase que sem usar o pensamento ou as palavras, lançando mão apenas do sentimento, peço a Deus que me aqueça o coração nesses dias de um quase esgotamento.
E parecendo querer me responder na mesma moeda, e ignorando o uso de palavras, ele me chama a atenção de algumas fotos.
Nelas, minha esposa, meus pais e meu sobrinho. Em todas elas, um colo.
Fui aquecido pela certeza de que tenho onde repousar a cabeça em dias de cansaço, seja na igualdade de quem luta a mesma batalha que eu, seja na experiência de quem já viveu muito e tão bem, seja na simplicidade do cafuné de um menino que é todo afeto e carinho.
Dos retratos que a vida me dá, seu amor me aquece e recompõe.

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